Não mate a poesia. Todos os poetas a buscam e ela escolheu pousar em você.

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Lançamento do livro A moça que olha pela janela e outras crônicas publicadas no Jornal NOSSODIA


A Moça Que Olha Pela Janela, da Acadêmica da ALB-Suíça Claudia Bergamini é uma coleção de deliciosas crônicas publicadas em um dos Jornais da cidade de Londrina, o Jornal Nosso Dia



Há pouco menos de um ano, recebi do editor do Jornal Nosso Dia, Thiago Mossini, o convite para manter uma coluna de crônicas no jornal, com publicação às segundas e quintas-feiras. Desde 25 de julho de 2017 mantenho a coluna Nossa Crônica. Em abril, por conta das comemorações do aniversário do jornal, o editor me propôs a organização das crônicas publicadas no periódico em livro. Como a resposta tem sido bastante positiva da parte dos leitores, aceitei com alegria o convite, fiz a seleção de crônicas e inseri outras ainda inéditas que deverão ser publicadas ao longo de julho no jornal.




A crônica, embora possa parecer simples, é um dos gêneros  mais anfíbios, usando o termo do crítico Arrigucci Junior, professor e pesquisador da USP, uma vez que nasce da matéria banal, cotidiana e vai para o jornal, espaço que a acolhe desde o século XIX, veículo que também é cotidiano e, em geral, o que nele circula é efêmero. Assim,  ao transferir para o livro a crônica, tem-se duas relações, a primeira de permitir que o texto que trata de fatos miúdos seja imortalizado em livro; a segunda de permitir ao leitor que tenha em mãos, de forma sistematizada, o texto que lhe agradou, já que o jornal de hoje tende amanhã a ir para o lixo. 

Vendas pela Editora Ceos ceoseditora@gmail.com

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Rabiscos em prosa



 





Mariana era ainda menina quando conheceu amargos sabores. Mal teve tempo de crescer e já virou adulta. Nunca gostou da frase tão comumente dita: 'O que vai ser quando crescer?' Ela pensava toda vez que a ouvia 'serei eu, com meus medos, sonhos e projetos!' Havia sonhos! Ah... quantos sonhos povoavam a mente da menina-mulher. Projetos eram em menor número; todavia ser feliz fosse talvez algo a que ela muito almejava. Não sabia ainda que felicidade era como nuvem, no instante em que se faz, dissipa-se.
O tempo, que é inimigo da perfeição e devorador das horas, era também inimigo de Mariana. A pressa habitava aquele ser cheio de uma vida a ser vivida e, ao mesmo tempo, carregado de nuvens negras e densas, como que anunciando tempestades.
Passou anos e anos debruçada sobre tarefas tantas que envolviam a maternidade, o lar e o ler. Leu! Leu como uma devoradora de palavras histórias e histórias e, ao passo que lia, entendia um pouco como a vida funcionava. Mariana cresceu mais em saber que em viver. Tornou-se forte, e disso ninguém duvidava, construiu grandes possibilidades a ela e aos seus. Mas era só que ela vivia. Podia entender tudo, menos a lacuna que havia em si. À noite, as lacunas eram ainda mais acentuadas. Não havia um lugar dentro dela em que ela pudesse estar para arar o dia e preparar o amanhã como quem prepara a terra fértil para a seara. Não havia nela um lugar em que a mente pudesse descansar e se desligar da infinitude de pensar que a tomava.
Mariana chorava com facilidade. Não raras vezes engolia as lágrimas e se voltava à outra atividade. Ledo engano! Estar ela com ela era sinônimo de chorar. Poucas foram as tentativas que fez em busca de tornar seu sorriso, o qual se fazia intenso a todos, um sorriso intenso a ela. Conhecia suas razões, seus medos e começou a pensar a vida como uma lacuna apenas. Passos mal dados. Escolhas desacertadas. Vontades nunca concretizadas.
Conheci Mariana numa tarde de muito frescor. Vi nela a beleza da vida, a luz especial que inebria. Percebi-a como terra fértil que está pronta para parir um mundo de ideias. No entanto, Mariana não se via assim. Era apenas Mariana. Menina que carece de colo; mulher que deseja ser amada; ser humano que carece de aprender a viver. Poucas vezes estive com ela, queria-a para mim. Tomá-la em meus braços e dar a ela os instantes de nuvem de algodão de que tanto precisava. Ela, pássaro acorrentado, ainda que em liberdade, afugentou-me. Hoje busco respostas para entender se seria capaz de amá-la ou apenas de entendê-la. Quisera eu ser o dono de uma varinha mágica e dar à Mariana o calor que merece, o cuidado que deseja, o carinho que lhe falta e a nuvem de algodão cheia de felicidade, sem se dissipar como num passe de mágica.



O casarão
(Por Claudia Bergamini)





Deu sinal ao taxista que parasse o carro no número 595. Ele assim fez. Janete ficou um tempo dentro do carro, contemplando a bela edificação diante de seus olhos. Havia portas de madeira com arcos que davam para a avenida principal. Em madeira colonial, o apagamento do brilho denunciava a falta de trato com as sofisticadas portas. O jardim estava tomado por tiririca. Os cravos e minibeijos de todas as cores resumiram-se em mato. O cedro azul ainda estava lá. Suas raízes profundas mantiveram-no vivo em meio à morbidez do palacete. Janete abriu a porta do carro e saltou, pedindo que o taxista a aguardasse. Seus olhos percorreram a calçada onde formigas trilhavam com folhas e flores nas costas rumo ao interior da casa. Lembrou-se, naquele momento, da casa de Úrsula em Macondo. Que tristeza! Ver em ruínas o lugar onde vivera por mais de meio século. Ali, sozinha e desolada, Janete abriu o portão. O cadeado enferrujado não exigiu muito esforço. Foi devagarinho se aproximando da porta principal. Entre a ansiedade e a saudade, havia o medo. Colocou a chave e girou a maçaneta. Vazio, apenas o vazio havia no salão onde outrora imperavam as damas da sociedade com seus pares. A mesa em travertino com cadeiras de carvalho não estava mais lá. Mas ela se lembrou dos vinte lugares sempre ocupados. Lembrou-se da porcelana francesa em que servia os pratos mais sofisticados da época. Seus olhos vislumbravam o sofá em que ela e Gerson, ao final de cada recepção, entregavam-se exaustos. O marido, sempre sedutor, amava-lhe com devoção. Seu corpo sentiu o toque seguro das mãos dele, na boca veio o gosto do beijo que descia para o pescoço até chegar aos seios. Janete arrepiou-se. Tentou não pensar nos calores do passado, afinal já tinha 72 anos e agora a idade exigia outros pensamentos. Outros? Que nada, pensou ela. Era mulher, estava ali sentindo e para o sentir não há idade. Em diafania viu Gerson aproximar-se. Continuar a enredá-la naquela trama sinuosa e caliente. Sentia suas mãos passeando por cada parte do corpo esguio e de pele macia. Um gemido saiu da boca de Janete. Ela levou a mão à boca como se quisesse sufocar o que nela sempre viveu. Caminhou até a cozinha, tentando amenizar o calor que lhe tomava. Os olhos podiam ver o movimento dos funcionários, ouvir a cozinheira ralhando com as crianças que queriam os doces antes da hora. Dois filhos teve o casal. E agora, ela estava só. Um aperto lhe veio ao coração e um nó à garganta. Como pôde o destino ser tão cruel? Como pôde Deus tirá-la de forma trágica do convívio das três pessoas a quem ela mais amava. No silêncio do casarão, Janete chorou. Suas lágrimas eram pelo que viveu, eram por tudo o que faltou viver e, sobretudo, pelas sensações e emoções que jamais poderia sentir. Não quis ir até os quartos, tampouco se dirigiu ao quintal. O que vira era destruição, era um lar sendo habitado por formigas e suas folhas. Chorou um choro amargo, triste. Em pouco mais de meia hora ela reviveu instantes únicos de sua vida. O momento era, pois, outro. Voltar à casa dos parentes com quem vivia e se render ao sabor acre dos dias. Trancou a porta. Dirigiu-se ao portão, fechou o cadeado enferrujado. Olhou uma vez mais para o palecete. Decidida, concluiu, hora de vendê-lo. A água não passa pelo mesmo lugar por mais de uma vez e para sentir o que sentiu no palecete ela não precisava estar lá. Gerson vivia nela, assim como os filhos. O passado ela não conseguia ser. Porém, o presente seria por ela vivido, haverá um virar de página, haverá uma nova história que começou no instante em que ela entrou no táxi.  


Novo fôlego para o amanhã
(Por Cláudia Vanessa Bergamini)




Quando Gilda passou pelo salão, sentiu um arrepio na pele ao olhar seu rosto no espelho que cobria parte da parede defronte ao aparador. A mesa imensa ainda estava arrumada, pronta para receber os dezoito convidados que, às pressas, foram avisados de que o jantar havia sido cancelado. Gilda não podia compreender como tudo sucedera.
Desde que recebera a notícia, repassou em sua mente cada movimento vivido ao lado dele. Lembrou-se das tardes em que o calor dos corpos ultrapassara barreiras intransponíveis, e a doçura das palavras caminhava para além de simples versos e chegava até ela pelo olhar vibrante de seu companheiro. Caminhou lentamente por entre as cadeiras dispostas junto à grande mesa. Havia escolhido cada detalhe daquele evento. Os talheres Christofle haviam sido trazidos da França em sua última vigem e ela não usara, aguardando aquele momento. As louças de porcelana da Haviland davam à mesa requinte e convidavam a sentar-se e saborear o prato que ela havia escolhido com esmero, mignon a bourguignon.
A mulher estava meio atônita. Não conseguia pensar direito, tampouco havia digerido a notícia que recebera minutos antes do horário em que os convidados deveriam chegar. O cancelamento fora feito às pressas pelo mordomo que, com uma desculpa qualquer, dispensou as dezesseis pessoas com quem Gilda e Bartolomeu dividiriam algumas horas de alegria, regadas a Don Diego Escolano, safra de 2014. A cada mirada aos móveis do salão e à mesa posta, Gilda sentia suas mãos frias, seu rosto empalidecer, seu coração apertado. Bartolomeu não poderia ter agido daquela maneira. A mulher fechou os olhos, uma lágrima rolou e junto dela tantas outras. O filme começara. Nele ela só rememorava cada palavra que a fez construir um universo tão deles que parecia ser único e incapaz de ser desmantelado. Gilda se lembrou dos planos, de cada proposta, de cada palavra, de cada instante. Pensou ela no sabor doce de tantos momentos em que Bartolomeu a fez sentir-se única, e como ela nisso acreditou. Eram um, eram unidos, eram dois corpos no universo entregues ao prazer de amar, de estar um com o outro, de devotarem-se em função de uma história que se fazia grande a cada dia. De fato se fazia, pensou Gilda, mas só para ela.
Enquanto ela devaneava com as frases lidas, as palavas ouvidas e as sensações despertadas, ele repetia cada palavra a outra mulher. Gilda chorou. Um choro amargo saía dos olhos dela. As lágrimas eram fel que escorriam do rosto e desciam até a boca, misturando-se à saliva cheia de sódio. Amargo era o gosto, amarga era a vida. Caminhou até a porta. O carro não estava mais lá. Ele havia saído sem nada dizer. Também, pensou ela, de que valem as palavras quando o vento é tão forte que as leva, de que valem as respostas quando vêm tão tardiamente, de que valem as desculpas quando o mal já rasgou o véu que encobria o bem. Gilda precisava respirar. Naquele momento as mãos estavam vazias, pendiam no ar como panos estendidos no varal a voar solitários ao vento. Era um tempo de perder-se em portos distantes, em taças tomadas às escondidas, em caminhos errantes.
A mulher parou diante da mesa posta e a contemplou. A vida, mais uma vez pensou, é mesmo um fel; no entanto, trilhar por ela exige saber driblar a espada que, dia a dia, é colocada em meu peito. Bartolomeu nunca a amara, constatou. O amor dito soa tão lindo, mas as ações, quando se está frente a frente com alguém, é que determinam o amor. Bartolomeu determinou o quanto ela nada era para ele. Gilda caminhou por todo o salão. Ao caminhar prestava atenção em cada objeto e detinha-se, com cuidado, em detalhes. Seus olhos estavam, de fato, perdidos em um tempo em que a estrada não era sombria.
Voltou-se à garrafa e tornou a encher sua taça. De um só gole sentiu o vinho invadir-lhe o sangue, a face alva tornou-se enrubescida e levemente aquecida pela bebida. Forte e dona de si, veio-lhe à mente que de costas voltadas jamais poderia ver o futuro. Os venenos que abraçara poderiam ser cálices de licor. Viu em Bartolomeu a casa deserta onde palavras não poderiam entrar. Viu nela o alvo em que setas bem disparadas saberiam onde atingir. Bebeu de uma só vez o restante da garrafa. Secou os olhos. Elevou a postura do corpo. Tocou a campainha e deu ordens ao mordomo que retirasse a mesa e colocasse nela as flores tão costumeiras que davam vivacidade ao ambiente. Olhou no espelho e contemplou seu rosto tão amarelecido pelos últimos acontecimentos. Passou o batom escarlate de que mais gostava. Sorriu um sorriso débil. Disse a si em pensamento que havia aprendido da vida em goles pequenos, mas o que aprendera seria o suficiente para erguer um novo castelo, no qual estariam contempladas faces outras, tão diferentes da face de Bartolomeu.
Gilda poderia passar a noite a lamentar-se, mas não...Optou em ir para o quarto, tirar tudo de Bartolomeu de lá, colocar no corredor. Lentamente despiu-se, deixando ao chão o vestido Lanvin e a lingerie de seda. Na cama, estendeu seu corpo com delicadeza. Tomou suas mãos e deixou-as passear por todo o continente. Entre uma parte e outra ela sentia um misto de ousadia e prazer. Aquela mulher, entregue a si, rendida aos seus devaneios, não pensou em Bartolomeu, tampouco na dor e no ódio que a tomava. Gilda somente pensou que a vida carecia de ar. Precisava ela respirar. Respirou e suspirou diante do que ela mesma provocou. Sozinha, governante de si, ela dormiu.
A manhã logo romperia e um novo dia se construiria e, junto a ele, novas oportunidades. Forte, veemente, decidida, sorriu e pensou no amanhã. Não derramaria mais uma lágrima sequer por ele. Nunca, nunca mais!



O jantar
(Por Cláudia Vanessa Bergamini)




Ela chegou ao restaurante e se sentou solitária em uma mesa no centro do salão. Usava um vestido vermelho, sandálias pretas, uma delicada bolsa preta de mão em couro. Os cabelos escuros contavam com uma parte presa por uma presilha de pérolas, compondo um harmonioso conjunto com o colar e os brincos também de pérolas. A boca era carmim, os olhos maquiados e bem contornados. A bochecha trazia um toque leve de um rubor provocado pelo blush.
O seu semblante era cansado. Os olhos denunciavam lágrimas insistentes; porém, aqueles olhos tinham um brilho que lhes era peculiar. As mãos de unhas escarlates eram delicadas e macias e, ao olhar para elas, a mulher se lembrava há quanto tempo não sentia a segurança de outra mão na sua. Escolheu um prato leve, pediu vinho e não brindou, embora tenha levantado discretamente a taça para desejar a si mesma dias em que ela pudesse se sentir um ser humano melhor.
Ao passo que degustava o sabor do prato, sentiu-se observada. À sua esquerda, um solitário cavalheiro admirava-a com atenção. Ela se incomodou, sua privacidade fora invadida, mas ao mesmo tempo, um sentimento de alegria lhe tomou, porque gostou de saber que estava sendo observada.
Findado o jantar, fez menção ao garçom, pois desejava escolher uma sobremesa. Neste momento, o garçom lhe informou que haviam escolhido uma para ela. E trouxe então à mesa sem mencionar quem fora. Ainda que ela deduzisse ter sido o cavalheiro solitário, nada perguntou ao garçom; porém não recusou o doce que ele colocava à sua frente. O garçom entregou-lhe um pequeno bilhete, no qual ela leu: "Poucas são as pessoas de presença tão marcante como a sua. Me ligue, ansioso." O bilhete trazia um número e a assinatura com o nome. Ao olhar para a mesa onde estava o cavalheiro, ele já se levantara, olhou para ela e deu um sorriso discreto e carinhoso.
Passou por detrás de sua mesa e tocou-lhe levemente o ombro. A mulher sequer provou da sobremesa, ficou ali a pensar e a imaginar quem seria aquele homem. Olhou tantas vezes ainda para o celular, há horas que aguardava a mensagem de quem de fato era o dono de seu coração, recebê-la era para ela tão caro. Mas não veio. Guardou em sua bolsa o pequeno bilhete e voltou para casa ainda mais sem rumo do que antes.
Naquela noite, não pôde dormir. A vida estava lhe apresentando talvez uma oportunidade de ter alguém que pudesse seguir ao seu lado. Lembrou-se das horas de espera pela mensagem, lembrou-se das noites em que solitária desejou o calor do outro ao seu lado, lembrou ainda do que havia em seu coração e isso pesou demais, porque sabia, o que o homem supostamente tentaria lhe oferecer, ela já havia encontrado de uma forma rara e única. Decidiu ir até a cozinha, rasgou o bilhete, colocou dentro de um prato e pôs fogo no pequeno papel. 
Sabia desde o início que, ao menos desta vez, faria a escolha certa para a sua vida. As possibilidades quando se faz uma escolha coerente são bem maiores, o tempo pode fazer acontecer coisas fantásticas, mas a escolha equivocada pode trazer de imediato dor e sofrer. A mulher encolheu-se na cama como quem tenta abraçar a si mesma. De seus olhos, as mesmas lágrimas insistentes chegavam com furor, o coração inquieto respeitava o que dizia a boca quase num sussurro: “tenha paciência”.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Poemas de instantes



Erma 
(por Cláudia Vanessa Bergamini)
Menina, menina, aprende a viver,
tira o pé da lama,
a cabeça da nuvem,
a mente da tempestade.
Procura tua estabilidade,
ela não está no sol,
nem tu és uma lua,
acorda logo e sai à rua.
Deixa de lado a doçura de palavras,
pensa mesmo é na realidade,
pensa nas verdades,
busca a tua sobriedade,
(mesmo quando o vinho deixar corpo e mente rendidos,
faze de flores um colar bonito e sai para desfilar sem medos, estão eles rendidos).
Menina, menina, o tempo corre e cobra.
Quantos dias podes contar e ainda presa estás neste vendaval tão sem sentido?
Corre, menina, para a vida,
tu eras livre e sabes bem disso.
Liberdade, menina, não está no corpo,
está na mente e no coração.
E tu eras livre.
Volta à tua liberdade,
pode ser ela uma farsa, mas teu coração era livre.
Liberta-te do mal que te aflige.
Sorri para a vida e olha ao redor,
sabes bem que rostos miram para ti,
que há mãos que desejam, de verdade, segurar as tuas,
senti-las bem de perto, com calor, com maciez.
Esquece palavras, menina,
são elas tão efêmeras diante de verdades que te fazem sofrer.
Eleva tua face ao céu de novo.
Busca aquilo que já foi,
não queiras ser outra, pois tu és fruto de ti mesma,
e quem te conta mentiras não merece sentir o calor de tuas mãos, nem a doçura de teu coração.
Guarda, menina, o amor para o porvir,
deixa o sorriso para outro dia,
oculta o desejo como outrora isso já conseguistes,
esconde a mulher vibrante e deixa o tempo sossegá-la.
Todavia, não esqueças do chão de luzes baças por que pisou,
agora, toma a rédea de tua vida e pisa em solo firme,
esquece o coração,
volta a ser razão,
não deixes que o olhar te cegues uma vez mais.
Lembra-te das linhas primeiras que lestes,
já não eram tuas,
lembra-te das palavras primeiras a ti ditas,
elas te alertavam e tu, de coração desenfreado,
esquecestes de tua promessa.
Menina, menina,
te quero sorrindo,
te quero vivendo,
te quero liberta.
Age com coragem e crê na tua força.
Esquece o sol e pensa na lua.
Faze com que a lua não morra,
mas que nela deixe de viver o astro que a consome.

Invisível 
(por Claudia Vanessa Bergamini)
Carros passam pela rua. Buzinas soam. Janelas se abrem e se fecham. Da esquina, um grito ecoa. O ônibus freia, alertando os ouvidos de que é preciso atenção. Da casa, a menina a tudo assiste. Pobre dela! Não sabe que no coração o ritmo é mais intenso do que o do frenesi citadino. 

Mister 
(por Claudia Vanessa Bergamini)
Perder-se também é caminho,
nele é que se tenta encontrar o que não se sabe,
mas se sente.
Perder-se é necessário para o encontro consigo...

Laço para enredar
(por Claudia Vanessa Bergamini)
Se me olhares de novo,
com mais atenção, 
encontrarás para além da fragilidade e lágrimas...
Olha-me com olhos devoradores,
tira do teu olhar a água tranquila e põe nele o mar revolto.
Olha-me como quem mira o fogo e suas labaredas serpenteando sob a fogueira,
como quem se depara com a chuva depois da estiagem,
como quem se aquece com o fluir do vinho no sangue.
Se me tocares de novo, 
com mais veemência,
encontrarás na pele a maciez dos lençóis nupciais.
Toca-me com mãos insinuantes,
tira das tuas mãos a delicadeza do toque e põe nelas as garras da águia diante da presa.
Toca-me como quem se agarra à corda diante do desfiladeiro,
como quem segura a medalha depois da longa maratona,
como quem toma a pena para compor o mais belo soneto.
Se me olhares de novo,
como eu me olho agora,
vislumbrarás a geografia do meu corpo,
a seda que me cobre a pele,
os perfumes que exalam do meu cabelo.
Achega-te até mim com lábios molhados,
põe nas tuas palavras as ousadias tantas que conheces,
renda teu corpo aos movimentos do prazer,
deita-te ao meu lado por horas apenas,
para que conheças a eternidade finita do instante.

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Aprendizagem
(Por Cláudia Vanessa Bergamini)
Era uma lição de casa,
uma tarefa sem dificuldades,
bastava viver a cada dia e,
pronto, missão cumprida.
Numa manhã, fez-se o Sol.
Tocou em minha mão com um lápis,
e, como se estivesse me conduzindo rumo a um desenho,
foi dando forma a um novo dia.
Não tardou e o lápis grafite foi substituído pelo de cor.
Primeiro um rosa delicado começou a dar vida à imagem.
Logo depois, a cor vermelha,
em todas as suas nuances, foi a mais empregada.
Menos ainda tive de esperar para que todas as cores viessem formar a aquarela diante dos meus olhos.
A lição estava sendo feita,
mas não finalizada.
Distraidamente, cor a cor, a imagem foi sendo composta.
Quanta harmonia dava a ela leveza.
Os olhos dela não queriam desviar-se.
Mas há dias de chuva...
Com eles, há tons tão melancólicos e nostálgicos.
Quando o Sol deixou de conduzir o lápis,
o papel pardo ficou, a lição ficou,
porque nem só de cores vivas se faz uma aquarela.




Dos parágrafos finais 
(por Claudia Vanessa Bergamini)
E no laço me encaixo,
na trama, vejo o drama,
no enredo, conflito.
E nas personagens sinto a vida, 
na narrativa, o pulsar do coração.
E com a fábula me encanto,
sem desfecho me ponho em pranto,
sem ponto final, uso reticências.
Ainda há interrogações,
porém o capítulo não findou,
vou deixar em aberto.
A vida corre e o final...
Final não há.
Te encontro aqui ou acolá.
Nesta vida ou em outra e juntos vamos por o ponto final.

Construção 
(por Claudia Vanessa Bergamini)


Eu trago minhas mãos vazias,
tirei delas tudo o que não me represente.
Eu trago os pés descalços,
apenas o frio e o calor do chão eu careço sentir.
Eu trago meu corpo nu,
porque precisava tirar da pele tudo o que não fosse pele.
Do rosto tirei a maquiagem,
dele quero somente o brilho dos olhos, o contorno natural dos lábios, o desenho da face.
Da alma tento tirar as marcas por anos incutidas.
Ledo engano!
Não posso sequer borrá-las.
Todavia, posso colocar outras que venham sobrepô-las,
quem sabe até dar a elas o colorido que não veio,
criar contornos outros que sejam tatuagens com sorrisos.
De mim, quero construir um novo eu,
que não seja conivente,
que seja prudente,
que mantenha a audácia e a força de ontem,
mas sem a ingenuidade de sempre...

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Noite se fez
(por Claudia Vanessa Bergamini)
E a tarde se fez noite... 
E o sol se ocultou em nuvens... 
E o frio voltou a rondar... 
Importante se faz manter o coração aquecido. 

Obrigada 
(por Claudia Vanessa Bergamini)
O agradecer faz parte da gratidão daqueles que se sentem plenos. Saber valorizar cada instante no dia em que muitas pessoas dedicam um momento a você é essencial para demonstrar a alegria do coração. Muito obrigada a todos que dedicaram a mim um instante de seu tempo e me cumprimentaram, festejando meu aniversário.


Do que se morre...
(Por Claudia Bergamini)
Engana-se quem pensa que se morre de solidão. Não. De solidão não se morre apenas se põe em estado de pranto. Engana-se quem pensa que se morre por amor. Não. Por amor não se morre apenas se põe em estado de tristeza. Engana-se mais ainda quem pensa que se morre por mudanças. Por mudanças não se morre apenas se resiste ao novo. De que se morre, então? Faz-se a pergunta o coração. A resposta eu já sabia, mas demorei a constatar. Só se morre nesta vida se parar de sonhar.

Acredite 
(por Claudia Vanessa Bergamini)

Sempre há de nascer uma flor! Ainda que o solo seja pedregoso, ainda que à terra faltem nutrientes, ainda que a água seja escassa.
Sempre há de nascer uma flor! 






Uma prece 
(por Claudia Vanessa Bergamini)

E nem mais o reflexo calmo da água me sustenta. Poderiam vazar-me os mais perfurantes espinhos e eu jamais sentiria uma dor como a que sinto agora, e pensar que essa dor nunca desaparecerá, é um vaga-lume que insiste apagar-se dentro de mim todos os dias. Receio um dia dissolver-me nela e, assim, dissipá-la, mas o Todo Poderoso não deixa, e não deixará. A prece que lhe dirijo nesse instante líquido e morno de angústia é a súplica mais pura, vulnerável e aprazível a seus olhos: cuida de mim!


Vozes 
(por Claudia Vanessa Bergamini)

Deus nos dá pessoas e sonhos, 
com elas, vem a alegria.
Depois, Deus, como quem quer ter certeza de nossa incapacidade de sermos felizes sozinhos,
vai matando um a um os sonhos,
e as pessoas vai tirando...
Ficamos sós,
mãos soltas,
braços ao vento.
É preciso saber, nas horinhas de descuido é que se acha a alegria.






Éolo 

(por Claudia Vanessa Bergamini)
E o vento, ora brisa, ora vendaval, está sempre a rondar-me. Chega e fica um tempo e depois se despede, deixando marcas tão características. Vento, vento, leve tudo o que fere, o que intristece, tira a mácula do coração. Vento, vento, deixe apenas a brisa mansa que longe está, todavia preciso sentir, senão respirar será vão.

Lição de como são os dias
(Por Cláudia Vanessa Bergamini)

Há dias bons.
Há dias ruins.
Outros terríveis e ainda os fantásticos.
Sobreviver a eles é mister.
Ser feliz é instantâneo!







segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Crônicas - Coluna Nossa Crônica - Jornal Nosso Dia



Caro Leitor,  nesta seção, disponibilizo a vocês as crônicas publicadas na coluna Nossa Crônica assinada por mim no Jornal Nosso Dia. Boa leitura!!!


Meu currículo





Olá, caro leitor, sou Cláudia Vanessa Bergamini, escritora e professora de Língua Portuguesa e Literatura, apaixonada por textos, comecei a escrevê-los desde pequena e, a partir de hoje, estarei compartilhando com você algumas de minhas reflexões por meio de crônicas. Espero que você goste e possa rir comigo, quando assim for possível, de algumas situações, refletir sobre outras e, o mais importante, possa encontrar neste espaço a oportunidade de ler algo leve e agradável.

Entre bloqueios e desbloqueios
Por Cláudia Bergamini
Publicada em 25 de julho de 2016.

E mais uma vez os usuários de um aplicativo viram-se, por algumas horas, impossibilitados de se comunicarem na tarde da última terça-feira. Que transtorno para tantos que usam o recurso a fim de tratar de trabalho, de estudos ou mesmo de questões familiares que não podem esperar. Para outros, porém, que veem uma forma de diversão nas mensagens de áudios, textos e nos vídeos, ter tido o app bloqueado foi uma maneira de descobrir que existe rua, ou melhor dizendo,  que existem modos outros de se comunicar e pessoas que são muito mais interessantes para um bom bate-papo real. A moça que há muito tempo toma o mesmo ônibus a caminho de casa olhou ao redor e se deparou com uma amiga da escola com quem conversou durante todo o percurso. Descobriram que todos os dias estavam ali e não se viam, quer dizer, não se percebiam. O rapaz, de cabeça erguida, atravessou a rua e viu na loja uma blusa de inverno que há tempo muito procurava. A blusa sempre esteve li, mas ele é quem mantinha a cabeça baixa, respondendo às mensagens. A mãe chegou do trabalho e pode contar com um conversa agradável com o filho. Quantas novidades eles tinham um para contar ao outro, pois, ainda que vivessem na mesma casa, as conversas eram rápidas e sempre interrompidas por outras as quais chegavam por meio do tal aplicativo. Bem, os motivos que levaram à interrupção do serviço, justificáveis ou injustificáveis, não vêm ao caso. Porém, fato é que as pessoas puderam desfrutar por alguns momentos de uma conversa cara a cara, ouvir a voz real, perceber olho no olho e talvez até alguns se deem conta da falta que faz tudo isso e de como é bom interagir face a face. Que venham outras interrupções, pois são elas uma forma de permitir ao homem olhar ao seu redor e viver de fato a realidade. 







O sorriso é a cereja da vida
Por Cláudia Bergamini
Publicada em 28 de julho de 2016.

A moça chegou ao escritório e foi recebida pelo colega de trabalho com um alegre bom dia. Bom dia para quem? Ela pensou na noite que tivera. Havia passado em claro. As preocupações cotidianas não a deixavam há dias descansar. Pensou nas horas e horas em que se virou na cama. Levantou, foi ao banheiro. Meia hora depois, levantou e tomou água. Mas meia hora e precisou novamente ir ao banheiro. Lembrou-se, então, da receita da vovó Olívia e foi para a cozinha. Dizia a avó que uma xícara de leite morno é tiro e queda para a insônia. E assim fez...Tomou o leite e foi se deitar. Acordou na manhã seguinte com o despertador lhe avisando que era hora de ir para o trabalho. Dormiu poucas horas, não sabe se por causa do leite ou se por causa das lembranças que lhe vieram à mente. Lembranças da infância, da avó, de tempos em que a vida era feita de instantes duradouros de sorriso. O sabor adocicado do leite trouxe com ele o gosto da massinha de pão frita e passada no açúcar com canela, gosto da rabanada do meio da tarde feita com os pães que restaram da manhã, o macarrão do domingo, com o molho bem vermelhinho, acompanhado pelo frango caipira. Antes de o sono vir tomar o lugar da insônia, a moça se lembrou ainda da voz da avó a avisá-la sobre as obrigações do dia, escola, tarefa, ajudar com os afazeres domésticos e, claro, não pôde deixar de pensar no quanto brincava. Correr, pular a amarelinha, pega-pega, esconde-esconde, balança-caixão, mãe da rua, salada de frutas. Meninos e meninas compartilhavam horas frenéticas de brincadeiras inocentes, de gritos que anunciavam pisadas na linha da amarelinha ou de céu e inferno, batidas no pique ‘um, dois, três, salvo eu’. O colega de trabalho viu nos olhos da moça um ar de alegria e, como não havia tido resposta, mais uma vez disse bom dia. A resposta veio imediata. A moça olhou para ele e respondeu: ‘Bom dia!’ Naquele instante morreu dentro dela a tristeza, pensou no bolo de aniversário e na cereja em cima dele e disse: ‘que o dia nos faça sorrir, pois o sorriso é a cereja da vida’. 


O galo

 Claudia Bergamini
Publicada em 01 de agosto de 2016. 


Sou cosmopolita, adoro concreto! Não que não goste da natureza. Porém, ainda que tenha crescido em uma chácara, o que me encanta mesmo é a cidade, seus labirintos misteriosos, sua noite agitada, sua manhã nevrálgica. Hoje, estando eu em uma pequena cidade do interior, daquelas que a gente sente que a vida corre lenta, sem a loucura dos grandes espaços urbanos, fui despertada antes das seis da manhã pelo canto de um galo. Há muitos anos não ouvira esse canto. À medida que me virava na cama e constatava que o corpo ainda pedia mais dela, rendi-me à melodia galinácea. Com que autoridade o galo anunciava a chegada de um novo dia, com que audácia ele avisava a todos que, por sua determinação, era hora de levantar. As outras aves não eram capazes de exprimir uma nota sequer, porque o majestoso tenor invadira o silêncio da pequena cidade com sua melodia. Enquanto ele cantava, revivi em meu coração instantes únicos de uma infância longínqua, quando ainda nem sabia o que era concreto. Lembrei-me de que em mim, em algum lugar, resta ainda uma saudade do canto de outrora, do galo soberano que me acordava. Amanhã, terei um despertador digital a me lembrar dos afazeres do dia. Todavia, o canto de hoje estará vivo em mim.


Ilustres somos nós! 
(Por Claudia Bergamini)
Publicada em 04 de agosto de 2016.

Certo dia, cheguei a um hotel. Um bem pequeno localizado no interior de São Paulo. A cidade sem muitos atrativos, daqueles lugares em que o silêncio paira no ar, a vida corre lentamente e as pessoas não precisam de pressa, pois o tempo lá é um tempo mais duradouro. Olhei tudo o que os olhos puderam enxergar na avenida principal, nada mais que meia dúzia de carros, algumas carroças insistentes que iam e vinham, talvez levando leite, ou quem sabe apenas de passagem. Mas, voltando ao hotel... Ao entrar nele, observei que na parede do pequeno estabelecimento havia fotos de todos os grandes que por lá já passaram. Com que orgulho o recepcionista veio contar-me sobre os tais ilustres. ‘Este, apontava ele, esteve aqui em janeiro, e mostrava a foto de um cantor sertanejo; aquele, apontando com o dedo, já passou três vezes por aqui’.  Os quadros estavam espalhados por todo o espaço. Aos montes! Eles tinham duas funções. A primeira, fazer o hóspede tomar conhecimento sobre quais personalidades já passaram por ali. A segunda fazer com que o hóspede reconheça a importância do lugar. De fato, é um hotel agradável. Para uma cidade com pouquíssimos habitantes, é excelente. Porém, os ilustres cantores e duplas sertanejas que por lá passaram nada mais foram do que hóspedes. Ser ou não ilustre está dentro de cada um de nós. Os cantores são figuras públicas. Alguns, seres humanos fantásticos; outros, seres humanos mesquinhos e envoltos em uma infinita pequenez. Nós, hóspedes que passamos despercebidos, somos ilustres, haja vista que quem conosco convive conhece nossas duas faces. A magnífica e a mesquinha. Sem máscaras, somos o que somos, sem palco, sem holofote, mas com um show a cada dia, pois viver é um belo espetáculo do qual somos os ilustres protagonistas.






Sobre cuidar de rosas 
                                               (Por Claudia Bergamini)
Publicada em 07 de agosto de 2016.

Simples ir até o jardim e escolher a roseira que deseja fazer sua. Simples ir ao jardim e separá-la para você. Feita a escolha, inicia-se um processo.
Os meses de julho e agosto são os mais indicados para que as roseiras sejam podadas. E de fato são. Talvez agosto seja ainda melhor.
A poda somente pode ser feita depois que a roseira ofereça a rosa mais pura, mais bela. Para tanto, dedicação é preciso. Regá-la todos os dias com água fértil, de qualidade inquestionável. Dedicar seu tempo a inspecionar cada pequeno espinho, cada detalhe das folhas e galhos.
Rosas gostam de se sentir seduzidas pelo seu dono. O prêmio dessa sedução são as pétalas aveludadas e levemente perfumadas que, ao simples toque, deixam revelar as gotas de orvalho que nelas se escondem.
Ofertadas as flores, chegou a hora da poda. Momento que saem todas as folhas e galhos em excesso e, ao passo que a roseira vai ganhando nova roupagem, seu dono já vê nela os traços que desejou lhe atribuir.
Quando alguém se torna o dono de uma roseira, torna-se, também, o dono de seus espinhos. Por certo que ela não tem pretensão nenhuma de ferir a quem ama com devoção. Porém, às vezes, o sol forte do dia, bem como as horas e horas em que ela ficou exposta sem cuidados deixam-na com espinhos em evidência.
Fácil resolver, é só dispensar a ela um tempo e o cuidado necessários que o dono só colherá a suavidade e a mansidão tão características dessa flor.
Rosas amam, e quando o fazem, despem-se de espinhos...


A lição de Rafaela 
Por Cláudia Bergamini
 Publicada em 11 de agosto de 2016.

Que alegria compartilhada pelo povo brasileiro esta semana com a vitória da judoca Rafaela Silva. Quanta lágrima na tarde de segunda foi derramada por pura emoção. Depois das lutas durante todo o dia - e mais aquelas durante os treinos - bom ver o sorriso da menina carioca vinda de um contexto tão complexo, aliás, igual ao de muitas Rafaelas brasileiras que andam por aí vencendo desafios a cada dia. Melhor ainda ver uma nação se render ao encanto da mulher forte que se apresentou como autora de sua própria história. Não é raro encontrar estórias de superação que vêm pôr em evidência a garra e a determinação daqueles que acreditam que amanhã é sempre possível conquistar o que hoje escorregou pelas mãos. Porém, a medalha olímpica de Rafaela não tem apenas o gosto da vitória; antes, traz em seu bojo a História sendo escrita por um viés outro. A História contada pelos passos resilientes que aprenderam a se fortalecer, caminharam por pegadas tão ousadas e souberam reescrevê-las com vistas à vitória. Que possamos todos encontrar em tal feito o espelho para o futuro, vislumbrá-lo como a fonte para a conquista. Que o ontem não seja motivo para que o amanhã não floresça e que cada lágrima advinda da dor de hoje possa ser colhida como fruto da alegria do amanhã.




Os mitos de carne e osso
(Por Cláudia Bergamini)
Publicada em 14 de agosto de 2016.

Ei, você? Você mesmo que acordou nesta segunda-feira cheio de problemas como tantas pessoas espalhadas pela face de terra. Então, ontem foi comemorado mais uma vez o dia dos pais. Data tão comercial, mas que, graças ao carinho e devoção de tantos filhos, torna-se um dia singular, em que abraços e frases são trocados e permitem vibrar a ideia do mito de carne e osso que é o pai. Sim, um mito de verdade, pois quantos pais trazem em sua trajetória a garra para vencer os obstáculos da vida. Trabalho, às vezes a falta dele; os apuros financeiros tão comuns num país em que certas instabilidades transformam os dias difíceis em mais difíceis ainda; as preocupações com o futuro dos filhos em relação à profissão, à família, enfim, pais são seres humanos, cheios de defeitos, de vontades, de dúvidas, de ausências, mas também cheios de presença, de alegrias, de sorrisos, de abraços. São estas características, pois, que fazem com que cada um traga a imagem do pai herói, do homem que chegava com a bala, o chiclete, que brigava por causa das bagunças de crianças, que levava ao parque quando possível, que comprava pipoca do carrinho da esquina. Cada um traz dentro de si a imagem do pai humano e que, por alguma razão, merece ser celebrado, ao menos em um dia do ano, como herói. Nem sempre a memória traz imagens tão belas, é verdade, mas no dia de ontem muitas amarguras foram deixadas de lado e o que valeu, de fato, foi ir ao encontro desse mito humano, reconhecendo que ele faz parte de nossa história. Brindemos a todos os pais, desejando que eles na eterna busca de serem os super-heróis dos filhos, possam, no mínimo, serem bons super-humanos.



O pedido de Letícia
Por Cláudia Bergamini
Publicada em 18 de agosto de 2016.


Dia desses fui à padaria, já bem no final da tarde, como me é costume passar por lá, cumprimentei carinhosamente as atendentes, que conheço de nome, Letícia e Isabel, e de sorriso. Muito bom ser por elas atendida e melhor ainda saber que leem as crônicas que aqui publico. Depois do pedido a mim feito para uma delas, como sempre eu queria pão francês e brevidade, foi a vez de uma delas me fazer um pedido. Sabe, você escreve sobre qualquer coisa? Letícia me indagou. Respondi que sim e perguntei, com curiosidade, por quê. Ela me explicou que não era fácil nem dizer o que desejava, imagina escrever, mas me explicou a razão de seu pedido. Eu ouvi e, ao terminar, lembrei-me das palavras de Bentinho, personagem de Dom Casmurro de Machado de Assis: ‘domino a arte da palavra, mas não a do sentir’. Sorri e prometi a ela que escreveria sobre o que me pediu. Então, aqui estou eu, tentando em mal traçadas linhas esvaziar, em palavras, tão difíceis sentimentos. O caso é que o assunto não é tão complicado assim e se trata de algo tão comum a tantas mulheres. Afinal, quem já não sentiu a dor de ser magoada por alguém que ama? Pois é! Essa era, pois, a situação da moça de sorriso doce. Não preciso aqui reproduzir o contexto, mas posso dizer que magoar alguém caminha para além da ação. A atitude feita hoje, amanhã já foi esquecida e até perdoada. Porém, o que não se esquece nunca são as feridas que ficam no peito sempre a doer, para nos lembrar que a ação existiu e as marcas estão ali para sempre. Mulheres, mulheres, seres tão cheios de delicadezas, sensuais, atrevidas, tímidas, doces, mas também cheias de dores, marcas, mágoas que muitas vezes as tornam amargas. Homens, homens, se soubessem lidar com flores, certamente nunca se feririam em espinhos e, em suas mãos, restaria apenas o perfume das flores que andam por aí pedindo para serem cuidadas. 




Colecionador de bibelô
(por Claudia Bergamini)
Publicada em 22 de agosto de 2016.

Pessoas não são bibelôs, como aqueles que se vê na vitrine, gosta-se da aparência e decide levá-lo para casa. Não se brinca com sentimentos humanos, pessoas são muito mais que isso. Quando se escolhe alguém para construir uma amizade, importante se faz ter em mente que nos tornamos responsáveis por aquela pessoa e quando se tem a reciprocidade como resposta, a responsabilidade é ainda maior. A lógica de alguns em relação ao outro é mais ou menos assim: escolhe-se na prateleira o bibelô; em um primeiro momento, cuida-se dele com esmero, dedicando tempo para polir cada parte. Em um segundo momento, incia-se um processo de apontamentos de defeitos, como que se fora uma forma de dizer "olha, você não me é tão necessário assim". Depois, inicia-se o período do descumprimento. A poeira, que antes jamais poderia estar por perto, começa a assentar. Cada dia um descuido. Até que chega o momento de jogá-lo, de descartá-lo de vez. Não importa o tanto que o bibelô tenha servido para agraciar sua vida, o fim dele é o lixo. Se ele estiver com alguma parte quebrada. Maravilha! Fica mais fácil ainda menosprezá-lo. E assim, em tempos em que vivemos na era líquida dos relacionamentos, as pessoas se tornam os pequenos objetos a enfeitar por um período determinado a vida do outro. A contemporaneidade exige tudo perfeito, se o bibelô quebra, lixo para ele. Pena as pessoas pensarem assim e permitirem que outras sejam feridas tão profundamente.






Por que comprei flores...
(Por Claudia Bergamini)

Hoje fui ao mercado, ao entrar, fui recebida com flores. Que alegria! Não se trata de uma flor qualquer, e também, vale esclarecer, não eram flores que me foram dadas. Porém, era para mim que elas sorriam. Era para mim que elas insinuavam uma beleza ímpar, a pureza do branco, contrastando com a alegria de um verde viçoso. À medida que me aproximava do lugar em que estavam expostas, confirmava em meu coração que era para mim que elas se mostravam assim tão meigas, tão doces e tão sedutoras.  Orquídeas, daquelas que simbolizam, segundo a lenda, paz e prosperidade. Prosperidade esta que vem anunciar a estação que se faz tão próxima, em pouco tempo, o cinza dos dias sai de cena e uma nova protagonista vem embelezar os dias com cores e amores, a primavera. Quanto de amor há em uma flor? E quanto de amor há em uma mulher? Estagnei-me diante da beleza que me servia aos olhos. Não podia sair dali, porque me sentia como a orquídea, bela, insinuosa, sedutora, pedindo para ser roubada, pedindo para ser a flor escolhida dentre tantas que embelezam o jardim. Entre mim e ela houve uma troca de sentimentos que pude ouvir o que ela tentava me dizer por meio de suas flores alvas. Dizia-me de quanto tempo ela precisou para ficar assim tão bela. De como o percurso pelo qual já trilhou foi de espinhos e de quanto aquele momento em que ela era contemplada e amada era único. Tomei o pequeno vaso em minhas mãos, pois não pude deixá-la. Ela embeleza muito mais que minha casa, enche de paz meus olhos tão cansados e preenche de vida minha pobre vida.


A bola 
(por Claudia Bergamini)

Ah, bola! Como te deseja o louco por futebol. Corre atrás de ti como se fosse única deusa a existir no universo. Sedento que está, para ti desenha com os pés as mais belas manobras. Faz dos gestos, para se aproximar, verdadeira poesia. Se longe tem de ficar, enlouquece. Procura-te pela manhã com a ânsia do bebê faminto. Pela tarde, rola contigo com a alegria do menino em seu primeiro gol. À noite, põe-se lobo a uivar para te seduzir. E tu, encantada bola, a acreditar ser sempiterna. Mas, toda bola tem o momento de ser a da vez. Toda bola tem o momento de ser a deusa a seduzir seu aficionado. Algumas levam um pouco mais de tempo para sair de campo, mas quando é chegado o momento: au revoir. Se não quer, entenda, ser a bola da vez tem dia e hora para acabar. Não é eterna a poesia que emana de ti e sempre haverá outra e outra e outra a merecer a paixão avassaladora do amante. Sempre haverá outra a fazer brilhar os olhos, a estremecer a respiração, a incendiar o corpo. Logo, passado o momento, sair de campo é honroso. Descansar da jornada intensa é cabível. E o outrora louco por ti, vai descobrindo outras e outras e outras, paulatinamente, que um dia também deixarão de ser tão sedutoras. E tu não habitará cá na Terra sempre triste, porque mais do que bola, tu és forte, mulher!








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