Não mate a poesia. Todos os poetas a buscam e ela escolheu pousar em você.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Poemas autopsicográficos

Bom dia com sol
(por Claudia Vanessa Bergamini)
É preciso que o Sol desperte a cada manhã, emprestando seu brilho ao dia e permitindo que a Lua descanse, aguardando o momento de brilhar novamente. 

Tenho pressa 
(por Claudia Vanessa Bergamini)
Sim. Tenho pressa. Eu sei. Faço tudo às avessas, errado e sem cuidado. Sim. Tenho pressa. Eu sei. Deixo a ansiedade cegar-me para aquilo que é óbvio aos olhos. Não me culpe pela pressa, ensina-me sobre paciência, ministra-me sobre mansidão, doutrine-me para que me aquiete e possa respirar sem o alvoroço que habita em mim.

À caça 
(por Claudia Vanessa bergamini)
Existe um lado meu que é puro fel. Sabe aquele amargo que faz tremer o paladar ao menor toque? Pois é! Em mim há desse fel, cultivado anos a fio em marinado de angústia, tristeza e rancor.
Todavia, também há um lado adocicado. De um doce daqueles doces não tão acentuados mas que, ao ser levado à boca, sente-se vontade de provar mais. Convivo com minhas ambiguidades. Convivo com minha transitividade. Num instante posso estar no céu, em um momento único a ver um ano dormindo, com a tranquilidade tão desejada. De chofre, no instante seguinte me entrego ao tormento. Deixo-me tomada horas e horas por um sentimento ridículo de impotência do qual preciso me libertar. No fundo, quero ser só um verbo intransitivo e não mais me sentir esse pronome indefinido que sou. Talvez consiga ser, ao menos, um adjetivo, sem superlativos, apenas um adjetivo. O que importa a mim neste momento é que estou à caça de um outro eu. Já posso vislumbrar seu contorno, mas ainda não se fez matéria. Porém, logo será. Basta que os dias sejam mais generosos e que eu consiga fazer de mim mesma o que sou capaz de ser.

O palhaço e o louco
(Por Claudia Vanessa Bergamini)
Um de tanto rir,
já não pode mais dormir.
Outro de tanto variar,
já não pode mais sonhar.
Convivem lado a lado.
Estão juntos e vivem grudados.
Complementam-se nas loucuras
e também nas amarguras.
Se palhaço é louco também,
se louco é palhaço de alguém.
Só interessa ser feliz
nem que ande com a bola no nariz.
A loucura do palhaço ´
é o riso do louco
a loucura do louco
é o riso do palhaço
e, assim, pouco a pouco,
vão os dois construindo espaços
abrindo vácuos
e buscando rir na vida e nos palcos.

O OUTRO EM MIM 
(por Claudia Vanessa Bergamini) 

Não somos donos de nosso tempo, mas sim daquilo que escolhemos com ele fazer, ademais, somos donos de nossas decisões acerca de para quem iremos dedicar e destinar o tempo que temos. Nem sempre as escolhas são lógicas, nem sempre as escolhas são perfeitas. No entanto, é preciso crer que as vicissitudes vêm de motivos outros, às vezes, até metafísicos, transcendentes. Pode-se sonhar e conhecer em sonho monstros que desejam devorar a presa, pode-se sonhar e tentar fugir, ainda que inutilmente, do gigante perseguidor. Felizmente, ao acordar, o sonho se esvai, passa de estado real à névoa, neblina, vapor... o sentir, porém, permanece. Fecham-se os olhos, nos ombros a necessidade do outro está a pesar. Sente-se uma angústia, definida como a incapacidade de conceituar o que se sente ou ainda como a intangibilidade humana para compreender a carga emocional densa que bate à porta. Não há razões que possam explicar as relações humanas, tampouco que possam esclarecer aquilo que se desconhece, mas que angustia. Sentir o outro é estado de graça. Não se explica, nao se define, apenas se sente.






O dom...
(Por Claudia Vanessa Bergamini)
Havia um reino. Um reino mágico onde vivia uma moça dotada de um dom: ela acreditava. Verdadeiramente acreditava que as pessoas fossem verdadeiras, acreditava que houvesse amor e respeito e que, de fato, quando alguém lhe prometesse algo, por certo seria cumprido. A moça não sabia viver de outra forma, por isso, estava sempre a acreditar e a esperar. Certa feita, numa tarde em que a espera por algo em que cria tornou-se longínqua, a moça decidiu desfazer o fio da crença e iniciou a produção de outro, muito mais feio, muito mais áspero, porém, muito real. À medida que tecia seu novo jeito de ser, foi conhecendo aquilo que no fundo ela já sabia existir. Não desanimou, continuou a tecer seu novo dom. Houve instantes em que teve de secar as lágrimas que caíam, teve de se recompor em instantes cada vez mais completos para que pudesse seguir adiante. Neste reino, não havia outras pessoas, a moça estava só. De uma solidão dolorida, de uma solidão única, mas mesmo assim ela escolheu seguir o caminho de seu novo dom.



Caminhos invisíveis
(Por Claudia Vanessa Bergamini)
Apresenta-se indecentemente aos olhos,
Deixa escancarada suas portas e janelas,
Permite que adentrem em suas mais belas paisagens,
Oportuniza que desfrutem de sua essência ainda tão pueril.
Todavia, em ti, habitam mistérios...
os quais, nem mesmo seu flanêur mais especial,
é capaz de captar.
Como bom vivã, ele busca deslindar suas veredas,
percorrer suas mais sedutoras alamedas.
E você, encantada e esfinge sem codificação,
coloca-se, tão somente, como labirinto,
e como a manipuladora de seus enigmáticos segredos.

μελαγχολία
(Por Claudia Vanessa Bergamini)
Bílis negra que percorre a alma
Mãos atadas ainda que possam mover-se
Sorriso escasso e vaporoso
a atormentar os sentidos.
Letargia e olhos aflitos
Em instantes passo por ciclos.
O que fazer diante desse quadro?
Somente sofrer, responde o infinito!