Não mate a poesia. Todos os poetas a buscam e ela escolheu pousar em você.

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Urgência





Viajar é viajar em mim
(Por Cláudia Bergamini)

Iniciei, há pouco mais de uma semana, uma viagem. Permiti-me fechar os olhos para tudo o que fazia parte de meu universo e abri-los para o universo do outro. Mergulhei fundo para conhecer histórias, para desbravar vidas e, à medida que viajava, senti-me pequena frente a tudo o que se colocava diante de mim. O mundo é grande, ainda que caiba na janela do nosso olhar, mas os detalhes que constituem a grandiosidade do mundo só podem ser percebidos se os olhos se abrirem como janelas frente a ele. Há culturas para serem conhecidas. Há rincões os quais podem os pés tocar. Há vozes a serem ouvidas, braços aguardando o abraço. Há vida à espera de vida, conhecimento a ser transmitido e muito ainda a ser ensinado. Comecei uma viagem há pouco mais de uma semana. Se meus pés tocaram solo novo; os ouvidos ouviram novas histórias; minha boca provou novos paladares; meu nariz, novas fragrâncias, isso não muda minha existência. O que me faz outra depois dessa viagem é o fato de me permitir iniciar a mais bela viagem, a viagem do homem sobre si, seu interior, sua essência. Como me ensinou magnificamente o escritor moçambicano, Mia Couto, não são por meio das distâncias que as viagens se constituem; mas sim pelas distâncias percorridas dentro de nós. 


Ponto difícil de colocar 
(Por Cláudia Bergamini)


Terminei um livro esses dias. Muito boa a sensação de conhecer outras vidas, dramas, alegrias, conflitos humanos que soam bem próximos à realidade e nos levam à deliciosa viagem de conviver com o personagem, refletir sobre o que se passa com ele, sentir-se no lugar dele, chorar, resmungar, gargalhar. Enfim, ler é buscar , na ficção, colocar-se no lugar do outro, aliás, atitude rara de se encontrar. Ao chegar ao final do livro, duas sensações me tomam: a de pesar, porque as vidas com as quais convivi ganharam um ponto final; a de satisfação, pois a ficção parece sempre ser capaz de escolher para o personagem o melhor fim. É neste momento do 'the end' que fico horas e horas desejando que os pontos finais fossem mais sólidos quando se trata da vida real. As pessoas de carne e osso, personagens do cotidiano nosso de todo dia, não tendem a aceitar com pesar ou satisfação o ponto final. Basta parar um pouquinho e ver como há relacionamentos que se estendem por anos, afogados e afogando quem não aceita saltar do barco antes que ele naufrague de vez. Relacionamentos não são contratos comerciais que se rompem de modo simplório, embora eles tenham lá suas formalidades. Se a boca já não anseia pela outra, se o corpo mantém-se inerte ao toque, as palavras já não dão manutenção ao contrato que os olhos antes asseguravam, o que fazer? Passar as horas lamentando não ser mais o melhor amigo, a musa ou o homem dos sonhos? Não sei se a resposta pode ser tão objetiva como o são os finais dos livros. Porém, penso que ela pode existir e ser uma resposta coerente, que vise ao bem-estar das pessoas envolvidas na trama real. Amor é estado de graça, ofertado de graça e, se não for assim, não tem graça. 


Inundação 
(Por Claudia Bergamini)


O início da semana foi regado por água e mais água. Que bom! A água simboliza a vida, a fertilidade e a certeza do florescer. Aliada à água, também marcou o início da semana a reflexão sobre a vida e a morte, suscitada nas questões da prova do vestibular da Universidade Estadual de Londrina. Não sei se providencial ou apenas coincidência, mas a semana de fato esteve envolta em vida e morte. A chuva foi intensa, destruição em alguns pontos e vida em outros, porque a chuva faz brotar árvores, germinar a semente, desabrochar a flor. Hoje é finados. Dia em que, querendo ou não, ao menos um minuto é dedicado às pessoas que finalizaram o ciclo da vida. Não me nego a aceitar a perda de pessoas que amo. No entanto, impossível negar a permanência da vida após a morte. Lembranças são o instrumento que traz vivacidade aos que se foram. Objetos, aromas, lugares, sabores, músicas... Justamente a lembrança inerente ao homem é quem acarreta sofrimento. A consciência de saber que a saudade é o que resta e a mesma consciência converge todo dia para a impossibilidade de mudar a realidade. A chuva inundou ruas, transbordou o lago. A saudade inunda o peito, faz os olhos se perderem em meio às lágrimas. Ir ou não cemitério é apenas um detalhe, porque saudade é inundação que nos toma em qualquer lugar. 

No creo en brujas, pero que ellas hay, hay...
(Por Claudia Bergamini)

Não vi ainda nenhuma bruxa. Pelo menos não daquelas que usam uma roupa preta, unhas enormes com mãos deformadas e uma verruga na ponta do nariz. Nunca ouvi aquela risada estridente e jocosa que faz arrepiar a pele e tremer as pernas de medo. Bruxas assim habitam o imaginário infantil! Habitam o tempo em que a vida se faz poesia a cada dia, em que esperamos das palavras e das pessoas muito mais do que elas são, em que inauguramos a imaginação a cada manhã, sempre à mercê de um grande acontecimento. Nunca vi bruxas. Porém, eu sei, elas andam por aí, à solta, passam às vezes tão despercebidas que nem nos damos conta de que vêm a qualquer momento nos tirar a paz e o sossego. Não as odeio, tampouco sinto medo, mas não posso dizer que devoto a elas o mais nobre dos sentimentos. Quero apenas a distância. Que fiquem em seus mundos com suas homilias longas e cheias de  razão. De meu sossego cuido eu, não as bruxas. Estas desde muito me tiraram a paz, mas se digo faço, ah, eu faço. Quem não me conhece duvida. Mas quem por mim já passou sabe bem de que falo. E faço! Então, não creio em bruxas, ainda que saiba que elas existem, mas bem longe de mim!

Diz que eu fui por aí
(Por Claudia Bergamini)


Se alguém perguntar por mim, diz que eu fui por aí... que delícia ouvir essa frase na voz do saudoso Luiz Melodia. Penso que, algumas vezes, seria mais gostoso ainda se a gente pudesse sair por aí. Andar sem ter de olhar no relógio, cumprir as rotinas que a vida impõe. Não levaria violão, porque não toco, mas levaria muitas folhas  em branco e nelas colocaria os versos que não tenho tempo de escrever, terminaria os contos começados e deixados por falta de tempo. As Marianas que esperam ter suas vidas direcionadas pelas mãos do narrador;  Carlos Lemos que aguarda um momento de encontrar Fernanda. Ah!!! Digam que eu fui por aí, levando comigo as folhas que voltarão repletas de histórias, digam que a madrugada não me encontrará mais dormindo e dormindo... A noite voltará a ser minha musa inspiradora de versos ardentes, de alegrias contidas, de tristezas escondidas e de vontades proibidas. Se você deseja sair por aí, vamos combinar e fugir juntos. Tomar aquela cerveja gelada; dar uma boa gargalhada; torcer pro time ganhar; brindar a vida livre, sem relógio; sem protocolo, reunião, rotina... Vamos sair por aí até a saudade apertar e o coração pedir pra voltar, porque os sonhos são momentos doces de ilusão, mas o que de fato nos faz homens é a vida, vivida dia após dia, rotina sempre em construção. 


quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Lançamento do livro A moça que olha pela janela e outras crônicas publicadas no Jornal NOSSODIA


A Moça Que Olha Pela Janela, da Acadêmica da ALB-Suíça Claudia Bergamini é uma coleção de deliciosas crônicas publicadas em um dos Jornais da cidade de Londrina, o Jornal Nosso Dia



Há pouco menos de um ano, recebi do editor do Jornal Nosso Dia, Thiago Mossini, o convite para manter uma coluna de crônicas no jornal, com publicação às segundas e quintas-feiras. Desde 25 de julho de 2017 mantenho a coluna Nossa Crônica. Em abril, por conta das comemorações do aniversário do jornal, o editor me propôs a organização das crônicas publicadas no periódico em livro. Como a resposta tem sido bastante positiva da parte dos leitores, aceitei com alegria o convite, fiz a seleção de crônicas e inseri outras ainda inéditas que deverão ser publicadas ao longo de julho no jornal.




A crônica, embora possa parecer simples, é um dos gêneros  mais anfíbios, usando o termo do crítico Arrigucci Junior, professor e pesquisador da USP, uma vez que nasce da matéria banal, cotidiana e vai para o jornal, espaço que a acolhe desde o século XIX, veículo que também é cotidiano e, em geral, o que nele circula é efêmero. Assim,  ao transferir para o livro a crônica, tem-se duas relações, a primeira de permitir que o texto que trata de fatos miúdos seja imortalizado em livro; a segunda de permitir ao leitor que tenha em mãos, de forma sistematizada, o texto que lhe agradou, já que o jornal de hoje tende amanhã a ir para o lixo. 

Vendas pela Editora Ceos ceoseditora@gmail.com